Quarta-feira, 26 de Março de 2008

Mike Doyle

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“(…) Outro ponto a sublinhar é o facto da estética reduzir a fadiga quando há downtime. Se houver algo bonito para onde olhar é menos provável ficar aborrecido quando se espera por um jogador mais lento. Se alguém estiver menos aborrecido, no final, a experiência foi melhor.”

Mike Doyle, 40 anos, casado, dois filhos. Dirige uma equipa de designers na Big Apple e, nos seus tempos livres, faz criações, recriações e joga jogos de tabuleiro. Este designer que vive no Garden State (New Jersey) e não tem jardim, aconselha-nos Bebel Gilberto com Puerto Rico e ordena-nos Miles Davies com Traders of Genoa – “é suave e doce. Usa este sedativo para acalmar os nervos da tensa negociação de Traders of Genoa

Brilhante, podemos dizer que existe um antes de Mike Doyle e um depois de Mike Doyle nos jogos de tabuleiro. Algumas das representações de board games mais espectaculares foram por si criadas. É um homem do mundo dos jogos que criou uma marca. Uma marca sóbria, sábia, de alguém que não pode ser ignorado.

Reconhecemos o sucesso de alguém quando abrimos os olhos na maior feira de jogos de tabuleiro do planeta – Essen - e, apesar da ausência física, tudo está carregado da sua assinatura. O ano de 2007 funcionou como “um ano de quebrar barreiras, de fazer a travessia”. Jogos como El Capitán, Container, Demetra, Yspahan, Leonardo da Vinci, Hannibal e, ainda em 2006, o sucesso em português de Modern Art de Reiner Knizia contribuíram para isso. Todos têm uma importância sublinhável e, apesar do seu melhor trabalho ser sempre “aquele em que está a trabalhar no momento porque existe a possibilidade de ser melhor que o último que fez”, Caylus Premium Edition é o escolhido para representar a família do sucesso. Aliás, para edições Premium, Doyle sonha ainda com um Puerto Rico neste formato. Algo que ele “ainda tem na cabeça” e quer fazer. Seria um simples “re-skinning, nada radical em termos de jogabilidade, mais funcional, e com o tal toque Premium”.

Caylus Premium Edition

As perguntas sucedem-se em catadupa: como é criar um jogo desde o zero? Como é arranjá-lo, refazê-lo? O mesmo processo? Processos diferentes?

Desenhar um jogo desde o início, desde o rascunho, nem sempre é uma tarefa simples porque “exige mais trabalho no tabuleiro ou na forma como os componentes interagem. Por outro lado, como não existem ideias preconcebidas, acerca de como o jogo deve ser, pode ser mais fácil vender uma ideia”. Quando se fala em jogos reeditados, como a maior parte dos projectos em que Mike Doyle está envolvido, qualquer coisa que seja “fora da fronteira” daquilo que é esperado, já pode ser muito difícil de vender. Com Titan, por exemplo, os editores tiveram receio que os jogadores que já conheciam o jogo o “recusassem porque não estavam familiarizados com um espaço menos simétrico”.

Com Container a criação estava muito limitada em termos criativos porque o editor tinha umas ideia fixa daquilo que procurava, quer em termos do tabuleiro quer em termos das cores a utilizar. Somente as cartas e o dinheiro foram espaços livres para criação e, portanto, o seu papel neste jogo, foi muito mais “de execução que de criação”.

Mas Doyle mantém o espírito crítico em relação a tudo, sobretudo em relação ao seu trabalho. El Capitán, por exemplo, como tem os nomes das cidades em estrangeiro e a localização geográfica difícil de perceber intuitivamente, foi desenhado com o objectivo de facilitar espacialmente a observação, numa grelha de 3 por 3, com imagens identificativas das cidades, incluídas nas cartas e no tabuleiro, para ajudar à compreensão. Contudo “as imagens não foram feitas suficientemente grandes, e não tomei em atenção o facto de se jogar com o tabuleiro de pernas para o ar. Também a impressão saiu mais escura que o que era de prever, o que não ajudou em nada.”

Também os outros têm a liberdade de criticarem as suas criações, tão expostas no seu blog. Regozija-se de receber o entusiasmo daqueles que gostam do seu trabalho e aprecia a crítica, sobretudo aquela que chega das pessoas que o conhecem e que “perdem o tempo de me escrever pessoalmente”.

Para Doyle os jogos “são quase todos iguais, têm o mesmo estilo de ilustração bem como a mesma aplicação na forma e, as coisas que saiam desta fronteira são, a maior parte das vezes, liminarmente rejeitadas”. Reconhece a resistência à mudança que a maior parte dos consumidores de jogos de tabuleiro, em geral, sentem. Considera-se pouco maistream, no sentido em que rema contra a tipologia imposta. Não se esgota nas linhas directas e frívolas de uma indústria que pode ainda não estar preparada para a criação maior de alguém que pretende preencher a alma estética de cada um de nós. Pôr em causa “o pensamento convencional” é um dos objectivos a que se propõe.

Quando falamos de outros autores sublinha a última criação da Ystari, Metropolys. Um trabalho de Mathieu Leysenne “absolutamente espantoso” e o reprint de Wallenstein, Shogun.

E qual o jogo que fez que mais gostaria de ver publicado? “É como perguntar qual filho é que preferia apresentar aos meus amigos. Todos têm um lugar especial no meu coração e gosto de todos, por motivos diferentes. Do Municipium gosto do tabuleiro, do Supernova, os gráficos e a unicidade dentro da sua categoria, do Titan – um jogo que, apesar de não ser o meu estilo, estou ansioso por ver publicado - adoro a riqueza dos programas, assim como o Battles of Napoleon. O Republic of Rome porque gosto de jogos pesados e este será muito rico”. Das criações independentes, a que mais desejaria ver publicada, seria o Samurai – “ficaria muito interessado em Samurai se alguém o escolhesse”.

Samurai, by Mike Doyle

A mudança fica para um futuro muito próximo. O seu próximo projecto, ainda no segredo dos deuses, vai revelar-nos um Mike Doyle diferente. Um projecto para a QWG com “um tabuleiro mais claro, que servirá como uma mudança dos meus trabalhos anteriores”. Vamos esperar para ver!

Um agradecimento especial a Mike Doyle pela sua disponibilidade e simpatia.

Sites obrigatórios:

http://mdoyle.blogspot.com/

http://mdoyle2.blogspot.com/

http://www.michaeldoyle.com/gameKultur.html

http://www.boardgamegeek.com/user/mikedoyle

http://www.boardgamegeek.com/thread/100097

5 comentário(s):

#nbs# disse...

Mike Doyle é claramente um caso à parte no universo dos jogos de tabuleiro - e é pena.
Goste-se ou não das suas criações, temos que admitir que a (re)interpretação que faz dos jogos é fabulosa. Ter um jogador e artista num só dá jeito porque não só temos jogos "bonitinhos" como práticos e funcionais...

#soledade
Começo a achar que o melhor é trocar-mos de ofícios... eu vou la para a Karanaga e tu "estudas" Jornalismo...
Excelente registo.

soledade disse...

@nbs
Olha! Troca-mos!

Obrigado pelos links. O Mike Doyle faz muita falta ao mundo dos jogos. É verdade que se existissem mais, com outra visibilidade, as coisas mudariam muito. Estou convencido que ele poderá ser o primeiro de muitos que se vão começando a "mostrar" de uma forma mais clara.

As partes da frente das caixas vão começar a trazer a assinatura dos ilustradores/designers, inevitavelmente.

Alguns fabulosos como o Arnaud Demaeged (Ystari) ou até, embora num estilo diferente, Juliet Breese (Reef Encounter).

Não estou a dizer que outros não existam, tão ou mais fabulosos que Mike Doyle mas, com um aparecimento tão sublinhado e marcante, não conheço. Ele pode significar um ponto de viragem, também nesse sentido. E isso é bom, tanto para o público como para os próprios designers.

Bruno Valério disse...

Eu adoro os trabalhos de Mike Doyle. O Caylus Premium como foi falado é um deslumbre para os olhos.

Até considerei comprar o El Capitan apenas pela Artwork lindíssima.

Penso que como foi dito 2007 terá mesmo sido um ano a lembrar no mundo dos boardgames. Nunca como agora a comunidade mundial esteve tão activa e tão avidamente atenta a tudo o que se relacione com o "hobby".

Como tal é natural que surjam especialistas nas mais diversas áreas e o design é apenas uma delas. Acho que vivemos num grande momento dentro deste pequeno mundo dos jogos de tabuleiro e cada dia é um dia que promete novas descobertas.

Ainda em relação ao Doyle, devo apenas acrescentar que vou comprar o Titan... posso até nunca o jogar, mas aquele tabuleiro vai sair muitas vezes da caixa... apenas para contemplação.

BrainStorm disse...

Apesar de reconhecer a excelência do trabalho do homem.. tenho a dizer que o que ele faz não me seduz.

Eu gosto de umas coisas mais simples. Que não me distraiam enquanto jogo. Não há nada "mailindo" que um tabuleiro nu e cru de um Power Grid, com aquelas cores horríveis. Enquanto jogas só pensas em electricidade.

Olha o tabuleiro do Tigris & Euphrates. Lindo, lindo, lindo.

vital disse...

@Brainstorm

Não podia estar mais de acordo contigo com a primeira parte do teu comentário. Tb nõa sou grande apreciador do design do Mike Doyle, acho muito suturno, repetitivo, aborrecido e demodê. acho que o homem se promove muito bem.

Só não concordo contigo quando dizes que o design do power grid é horrivel, muito pelo contrário, a linha gráfica a copiar o pós guerra dos anos 40 e a tendência modernista que encontras naqueles canos, ligações e cidades fazem, na minha opinião, um dos tabuleiros mais actuais e mais bonitos em que eu já joguei. Nem imaginas a dificuldade de fazer um tabuleiuro, como dizes, nu e cru como o de power grid.
Ninguém dúvida que mike Doyle é um artista com muito jeito para a pintura realista do sec. XVIII.
O homem devia pintar quadros e não fazer jogos de tabuleiro...