"... merda prós dados!!!"
Quando falo em wargames penso em dados. É uma daquelas questões da minha mente que eu não consigo resolver. Dou por mim a resumir muita da experiência do próprio jogo a um par de lançamentos (ou dois, ou três) mesmo que isso não o defina. E é difícil combater esta forma de lidar com a questão, este preconceito de eurogamer. Não é que eu abomine dados,
per se, mas, há qualquer coisa neles que me irrita...
Passando à frente nesta luta inglória do jogo de guerra modernaço - aquele que é jogado com cartas, counters, blocos, dados e outros ambientes - reconheço que a culpa de os não jogar não pode ser dos dados. Os dados não definem os jogos de guerra, da mesma forma que os cubos não definem os eurogames. Os ambientes (acho que esta é a expressão mais apropriada) dos jogos de guerra são vastíssimos e servem, precisamente, o propósito de criar uma atmosfera verosímel de uma experiência quase sensorial de recriação histórica ou fantástica, conforme o tema e o objectivo do jogo. Para esta recriação, nuns casos usam-se cartas com história, noutros counters com representações de força, ainda mapas com espelhos perfeitos de teatros de operações, ou mesmo blocos de madeira que escondem o inimigo. Usa-se de tudo um pouco. Às vezes tudo, outras vezes, pouco. Mas creio que, corrijam-me os mais letrados no assunto, os dados são, em 99% das vezes, denominador comum. Ou seja, eles não definem o jogo de guerra mas também não podem ser ignorados.
"... jogo do catano!!!"
A busca do Santo Graal dos jogos de tabuleiro é fascinante, por um lado, frustrante e angustiante, por outro. Esperemos todos que ele não exista porque, a existir, iria acabar com a procura e, na verdade, aquilo que faz do Santo Graal algo interessante e fascinante, rapidamente se iria tornar num resultado angustiante pelo facto da procura ter cessado. Recorro à analogia com uma célebre frase de Reiner Knizia - "nos jogos de tabuleiro o objectivo é ganhar mas é o objectivo que é importante e não o ganhar". Com o Santo Graal é o mesmo. O objectivo é a procura, o encontrar nem tanto. Resumindo, o que conta é o caminho.
A pergunta que eu me tenho feito é: "e se o Santo Graal for um wargame?"
Confesso que já tive mais certezas em relação a isto. As minhas dúvidas de agora prendem-se com o facto de começar a achar os jogos, cada vez mais, iguais. Mais coisa menos coisa, da minha colecção de cerca de 350 jogos, tenho uns 50, verdadeiramente, jeitosos. E por jeitosos digo apetecíveis de jogar de quando em vez. Quando volto à minha colecção e vejo dez jogos iguais, embora com dez títulos diferentes, fico frustrado. Como se o Santo Graal não existisse. Mas se eu quero que ele não exista por que carga de água hei-de ficar frustrado? É difícil explicar como esta frustração surge, sobretudo na medida em que eu quero que exista.
Olhando o outro lado dos jogos, os de guerra, esses, podem também ser iguais. Penso que terei cerca de 10 jogos de guerra e, metade deles, são iguais. Os Columbia são de blocos, os GMT são de cartas, os outros, são os outros. E são os outros que interessam para o assunto. Aqueles que são, realmente, diferentes. Tema, mapa, estratégia, táctica e, ainda mais pormenorizadamente, a arte, o nome, a caixa e a ausência de dados. Em particular, Maria.
"Maria!!!"
O último dos últimos jogos que joguei - Maria - mostrou ser um peso pesado. E digo peso pesado no conjunto de jogos que conheço. Digo jogos, generalizando e não particularizando em euro ou war games. Jogos são jogos e o Santo Graal não tem de escolher parâmetros desse género. Seria como escolher entre dois filhos. Maria, subtilmente, aparece como um dos grandes jogos do ano. Não posso chamar-lhe jogo "enorme" porque ainda não espiolhei todas as suas valências mas, como primeira abordagem, fica a magnífica impressão de um jogo sóbrio, bonito, de conflito, cheio de manhas e de balanceamentos subtis entre todas as nações intervenientes. Não direi que encontrei o Santo Graal, isso é precipitado e estúpido mas, cheguei mais perto, tenho essa convicção. E os dados, esses, como uma espécie de prémio de consolação e uma prova de emancipação, não estão presentes.
Maria veio acabar com a divisão dos significados entre os wargames e os euros. Veio diminuir a fronteira e designar uma nova era na minha "prática lúdica" - de agora em diante, jogos são jogos. De guerra ou não, com dados ou cartas, jogos são jogos. Com criança pequena ao colo, ainda em desmame, lembrei-me hoje que não posso afastá-la mais de 3 horas da mãe. Eu até posso levá-la para longe, muitos quilómetros de viagem mas, a mãe tem de seguir viagem também. É o supply! Tal e qual como num bom jogo, se queremos chegar longe, convém não descuidar o supply. Essencial em Maria, essencial em Miguel. A primeira impressão permanece sólida e firme, a review, essa, tem de esperar por maior experiência. Ainda é cedo!